\n'; document.write(barra); } } changePage();
GUIDO RENI
(Bolonha 1575 – 1642)
Morte de Cleópatra
Óleo sobre tela, cm 110 x 91
Uma antiga tragédia chega ao epílogo, destilando a partir de seu empaste de história e mito, de amores e guerras, de conquistas e submissões, um exemplum moral no teatro pictórico do século XVII. Outros destilados de corpo e alma, estão ao centro deste quadro. As gotas que levarão à morte a bela heroína são o soro venenoso de uma áspide que o pintor retrata na procura voraz de leite humano, as fauces voltadas ao mamilo rosado do seio. Gota a jóia suspensa no lóbulo, diapasão de pérola das carnes, e gotas as lágrimas de comoção do gesto extremo.
“Mineral desconforto da matéria”, esta definição límpida que o poeta Valério Magrelli oferece das lágrimas (em Ora serrata retinae) perfeitamente poderia ser comentário a esta pintura preciosa, que trespassa o cadáver da retórica barroca pelo caminho da sublimação adamantina.
O mosto de história e mito é mais que conhecido; Cleópatra, rainha do Egito de 51 a 30 a.C., no dia seguinte à derrota em Anzio por Otaviano, que leva ao marido Antônio ao suicídio, predispôs as condições de sua própria morte. Pouco importa, aqui, saber como ocorreram os fatos, importa que este último ato tenha chegado até nós como conto na forma perfeita da seqüência shakespeariana, mulher que não se dá a morte com um gesto cruento, como Lucrecia, seu alter ego romano, e sim pede cumplicidade ao réptil, oferecendo-lhe em troca o seu próprio corpo : estamos na cúspide dos sentimentos pertubados, modelo ideal não somente do hidalgo clássico, e sim decadência avassaladora.
Sugestão irresistível para as letras, a pintura e o teatro.
A interpretação por Guido Reni nesta obra põe-se no vértice de sua fortuna iconográfica, que vou definindo como íntima platéia no intento de render, como oximoro, aquele estilema expressivo particular que traduz os instantes da mais recôndita solidão da personagem, na sua consciência exata de estar se oferecendo a um público ideal.
Não há dúvidas quanto à autografia reniana, se bem que até os dias de hoje a versão considerada original seja a das coleções reais em Hampton Court . Já em duas cartas, datadas a 3 de outubro e 21 de novembro de 1991, D.Stephen Pepper afirma a plena paternidade de Guido Reni, destacando a elevada qualidade “de porcelana” da obra em exame, como na Caridade do Metropolitan Museum of art de Nova York, inclinando-se para uma datação a ser colocada entre 1628 e 1629.
Imagens radiográficas recentes têm evidenciado alguns pentimenti por baixo da camada compacta e íntegra da pintura final. São divergências menores mas interessantes, na mão esquerda e algumas dobras do pano, à versão inglesa que, infelizmente, não pude ver pessoalmente. Resta difícil se decidir quanto à prioridade cronológica mas o virtuosismo na redação pictórica e no açodo cromático da tela em exame, que vai desde valores diáfanos e dessangrados nas carnes, para assumir nas vestes, sob o azul plúmbeo da tenda, valores mais elevados, típicos das obras primárias do grande mestre.
Massimo Pulini